Páginas

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

1poema1

sonhei com uma palavra que dava um poema
se não a recordo
é para o seu significado impregnar
e desmistificar os meus olhos
para o que possa ser sólido
e praticável

desatem-se todos os laços
feito todas aquelas janelas que há no mundo
do Ultimatum de Álvaro de Campos
deixa dançar, deixa sorrir, deixa escrever
e fluir

sábado, 27 de julho de 2013

lavando, bebendo, ouriçando

Afigura-se assim, o mundo exige uma postura de sangue coalhado. Escrever aos impulsos da escolha das palavras do pensamento tem sido o relaxante natural desses dias de realidade arquetípica. Vem Vênus, incólume num palacete azul-dourado a perguntar-me o porquê das coisas e eu, simplesmente, respondo com um outro porquê. É assim que a vida vem levando aos montes, por trilhas de tijolinhos amarelos e penhascos aterradores de impulsos nervosos consubstanciados pelos sonhos de uma noite que apesar de dormida em uma constante pelas horas, deságua numa inquietante manifestação de deuses corrompidos.

Contraindo as veias e deixando o suor expelir-se pelos poros disfarçados, absorvo as perguntas de seres não reconhecidos em suas realidades mas enfrentados no momento típico de uma rotina diária que se derrama pelos dias semanais. Viver é como escrever a sangue frio e, quando digo isso, digo mais pelo impulso inconsciente que o ajuntamento de tais palavras elabora e liquefaz em minha escrita do que pela constatação da pressuposição contida na frase em si; e talvez seja. Afinal, as significações de palavras e atividades nascem influenciadas por nada mais que isto: dores, vivências e os dissabores de uma solução dada num recorte estimado de temporalidade.

O que faço agora é tocar o play do youtube e deixar os ouvidos abraçarem os esquadros da Adriana. Adiei a música pouco antes do começo dessas palavras, muito mais pela necessidade de desaguar na escrita ao invés de esperar pela conexão do rolar da letra, do que por uma atribuição de um sentido metafísico para a construção desses fragmentos, embora também assim o seja. Eu ando pelo mundo.. e meus amigos... cadê minha alegria? meu cansaço? meu amor, cade você?

Texturas são ventos que perderam o caminho do atlântico. Toquei uma ou outra pedra. Esbarrei em gente numa avenida qualquer da cidade. Tudo isso na senhora tempo, que muda todos os dias embora nunca envelheça, foi Caê que falou. É nesse verdadeiro detergente com água e sabão em barra que encontrei, entre esses caminhos sorrateiros que você acha que nunca vai entrar, que olhei algo precioso e até marco para novas rotas. Olhei foi gente, olhei corações e simplicidade. Dica: paradoxal o mundo, gente de carne, osso e sentimentos destrói e constrói o mundo e é essa gente que faz o mundo valer o centavo gasto com livros, xerox, bebidas e lápis para desenho.

domingo, 30 de junho de 2013

drawing

causei transtorno no desenho, fiz dele coisa sem dono, ouvi nozes baterem a porta
fechei meus olhos como quem olha o mar
dancei com toda aquela gente que navegava sem particular
pululei meu sorriso
no outro dia, no banho, decidi voltar a desenhar
com o lápis em mãos fui fazendo rabiscos com os pés no chão
errei algumas curvas, prestei novamente atenção
refiz algumas curvas e, imperfeitas, continuei a desenhar
quando dei por mim, assemelhava-se os rabiscos à figura
embora os olhos fossem diferentes
ainda assim continuei a desenhar

terça-feira, 18 de junho de 2013

Protestei em São Paulo

queria, mesmo, mapear todas as letras antes de falar
impossível, falar é redemoinho que empunhamos numa direção
falar é sangrar.

Lili recolheu suas sacolas do chão opaco e subindo as escadas, deixou para trás a poça vermelha, junto com o trem e a plantação de traços e linhas que, no rosto das pessoas, a acompanhou no metrô, no trajeto de seu apartamento para as hemácias de adrenalina que andavam pela avenida Paulista.

terça-feira, 11 de junho de 2013

chuva, suor e cerveja

Eu te deixei. Fui sonhar com o gosto das massas e das maçãs, escutei muito essa música. Aquela pressão no peito que me desvelava para a sombra do gradeado da janela na parede branca de meu quarto se foi. É, amor, um dia jurei que você era só parte de mim e me perdi. Nesse momento que escrevo, o alvoroço da presença da borboleta amarela em degradê branco, que veio me dá poesia pela abertura da janela, já arrefeceu, a borboleta desapareceu e eu escrevo com a coragem de tentar, ao menos, sorrir sem constrangimento para os que não me conhecem. Viver com o coração cheio tanto quanto me ser de dente-de-leão que se desfaz ao som da ventania das colinas.

Qual o vento que me leva? Talvez tenha sido ele que trouxe-me a chuva do sábado. De início não quis, achei todas aquelas gotas importunas para a ocasião da saída, ressabiei-me. Mesmo assim elas me deram mordidas, modificaram a minha temperatura e exibiram a cor viva que uma roupa molhada tem. A chuvarada aumentou e minha camisa grudou em meu corpo, abandonei a pouca proteção que tinha e fui me molhar, a chuva, antes negada, agora fazia-me ser sorrisos desconstrangidos pelo meu corpo, que dançava e gargalhava, nas entreluzes que as copas das árvores revelavam, feito uma criança feliz.

Continuo com aquelas doses de adrenalina somatizadas pelo pavor do desconhecido. No fundo, é assim, de matéria de viver, embora busque o sorriso da criança que comia pão-de-queijo nas tardes de segunda-feira assistindo televisão e fazendo de mimo a orelha da empregada, tem-se muito mais da frustração de não poder ter o desespero, confortável, típico de criança. Mas, é na minha humanidade que me vejo transparente e posso ver também o cristalino de minhas células, é só assim que posso seguir com meus erros, de coração tecido em rede de índio.